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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Sangra fumaça a Serra do Rola Moça

Há seis dias, em frente à minha casa, vejo a Serra do Rola Moça sangrando fumaça, esperando chuvas e aviões que nunca chegam. Como uma ferida aberta na perna, que sangra um sangue espesso, lento, pegajoso, dolorido, que escorre quente pela pele, a fumaça sobe por entre as fileiras de montanhas, branca, espessa, dolorida, caudalosa, ininterrupta.  
Lembrei-me que Mário de Andrade cantou em versos a bonita e triste história do nome da Serra. E, em mais um momento triste de sua história, resolvi publicá-la aqui, pois, como diz outro poeta, "quem fala em flor não diz tudo, quem fala em dor diz demais. O poeta se torna mudo, sem as palavras reais" (Ferreira Gullar). Estou muda. Passo a palavra.


A serra do rola-moça


A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não...


Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.


Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puseram de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.


Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.


A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.


As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.


Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos,
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.


Ali, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte,
Na altura tudo era paz ...
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.


E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

Mário de Andrade

2 comentários:

  1. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog Azues. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

    http://narroterapia.blogspot.com/

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  2. Sabe... morei em Minas, quando era criança. Uma cidade chamada Bambuí, umas 6 horas de B.H.,rua José Alzamora - não me lembro o numero -, bairro do Rola Moça...
    Nunca parei para pensar no nome e perguntei a minha mãe que nasceu lá e ela também não sabe!

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