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sexta-feira, 10 de junho de 2011

CRÔNICA FAMILIAR

A vinda daquela criança era muito esperada. O pai estava ansioso. Há meses fazia planos de brincarem juntos. Ele mesmo a ensinaria a jogar bola, a brincar de bolinhas de gude, finca; mostraria a ela suas músicas prediletas. Construiriam juntos os seus brinquedos: carrinhos de rolimã, patinete, pipas, manetes, carrinhos de lata de óleo e de madeira. Somente aquela criança poderia entrar no seu sagrado mundo da oficina: parafusos, porcas, chaves de fenda, ferramentas mil. Ensinaria a ela a consertar de tudo: chuveiros, fechaduras, panelas e tudo o mais que em uma casa se precisa consertar. Seriam companheiros inseparáveis. Pescarias infinitas os esperavam; passeios pelo parque municipal, jogos de futebol no campinho do bairro aos domingos. Mostraria orgulhoso o filho aos amigos: “esse é craque! Tá no sangue!”.

Com o pai, o filho aprenderia a ser um homem de verdade. Ensinaria a respeitar as pessoas, a aprender com os mais velhos. E não faria como o seu próprio pai fizera, não senhor! Deixaria a criança escolher livremente o seu caminho. Mostraria, sim, qual considerava o melhor, o mais correto, quais as vantagens e desvantagens de tal e qual profissão, isso sim.

Depois de nove meses de espera, de planos e sonhos, finalmente chegou o grande dia. Operação marcada, pois haviam planejado ter apenas dois filhos, a mãe se submeteria a uma cesariana e, logo em seguida, a uma ligadura de trompas. Cumpriram todo o ritual. A mãe se preparou: foi ao salão de beleza; arrumou duas malas, uma pra si outra pra criança; deixara a filha mais velha com a cunhada. O pai agendou o táxi; pagou o parto e a operação; tirou licença do trabalho.

Ah! Já ia esquecendo-me de dizer. Isso se passou numa época em que ainda não existia o ultrassom. O pai não podia se agüentar de tanta ansiedade. Na sala de espera, escutou o choro da criança. Correu até a porta do bloco cirúrgico. A enfermeira veio avisá-lo que seu rebento havia chegado. Num parto sem dor, a criança nasceu. Fofa, saudável, rosada, veio ao mundo aos berros, como só poderia ser. Era uma menina.

Como podia ser? Como acontecera? Já havia uma princesinha em casa. E o nosso príncipe? E o machinho da família? Todos os sonhos desmoronados. Os planos de brincarem juntos, de se tornarem o melhor amigo um do outro... Tudo, tudo se perdeu. O nome já escolhido, a criança sem nome. Que fazer?

Meio atordoado, o pai saiu em direção ao corredor. Desceu alguns lances da escada e ganhou o saguão do hospital. Lá, uma linda menina de cabelos negros e encaracolados brincava com uma bonequinha preta de pano. Muito calma e entretida em sua brincadeira, esperava há mais de doze horas a cegonha trazer seu novo irmãozinho. Próximo a ela, uma senhora cochilava.

O pai da menina-que-deveria-ter-sido-menino sentou-se ao lado da menina-da-bonequinha-preta-de-pano e começou a conversar com ela:

_ Quantos anos você tem?

_ Cinco.

_ Está esperando sua mamãe?

 _ Sim, meu irmãozinho está chegando... Meu pai foi buscar um lanche para nós. E a vovó está dormindo...

_ E como você se chama?

 _ Fernanda.

 _ Bonito nome o seu...

Ele fitou consternado a criança, os olhos úmidos, abriu um sorriso e despediu-se dela, voltando calmamente para o bloco cirúrgico. O nome? Ficou Fernanda!

2 comentários:

  1. Ei Fafá, esse seu comentário me inspirou a continuar escrevendo algumas recordações de infância, estórias contadas por meus pais, tios, avós... obrigada, amiga! bjs!

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