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quarta-feira, 29 de junho de 2011

MEU AVÔ


Meu avô morreu menino:
subiu no telhado e bum!
Caiu lá do alto, bem em cima do fogão da minha avó. 

Meu avô morreu passarinho:
criou asas mas não voou.
Caiu lá do alto, bem em cima do fogão da minha avó. 

Meu avô morreu pequenininho:
encolhidinho na gaiola.
Caiu lá do alto, bem em cima do fogão da minha avó.

Meu avô morreu sozinho:
sem a gente ao seu redor.
Caiu lá do alto, bem em cima do fogão da minha avó.

Meu avô morreu, eu menina:
criei asas e voei, voei...
Vi telhado, pé de jaca; vi meu avô de palitó.
Caí lá do alto, bem em cima do fogão da minha avó.

Daniela Versieux - junho/2011

domingo, 26 de junho de 2011

EFEITOS

Pelas palavras,
ditas ou apenas sonhadas,
sugeridas ou mesmo intuídas,
sentir e gozar
é mesmo de se adorar.
No corpo, os sentidos se aguçam.
Na carne, os efeitos se produzem.
Nos teus olhos que não vejo
bebo palavras inchadas de desejo.
Dos teus lábios, suspiro.
De tua pele, cheiro.
De tua mente, gente.
Será incoerente?

Daniela Versieux

sexta-feira, 24 de junho de 2011

DESEJO

Quando se aproxima, arquejo.
Quando se afasta, cortejo.
Quando me quer, pejo.
Quando me repele, motejo.
Quando me enlaça, festejo.
Quando me ascende, lampejo.
Se desaparece, pelejo.
Se enlouquece, ensejo.
Se desafia, almejo.
É tudo desejo.

Daniela Versieux

terça-feira, 21 de junho de 2011

FISIOLOGIA

Uma tranquilidade perturbadora
Uma paz insaciável
Uma solidão imensurável

Aqui, cercada pelas montanhas
                                e pelo mar,
sinto-me completa
Nada me falta, de nada necessito
Mas, se não há necessidade,
                               há vida?

Porque o ser humano precisa.
                     Verbo intransitivo?

Eu nado até encontrar
aquele sentimento tão necessário
de ter necessidade.

Comer, dormir, trepar.
Aos poucos volto à minha condição:
                                         humana.

Daniela Versieux


sexta-feira, 17 de junho de 2011

SOBRE INSETOS, PALESTINOS E ISRAELENSES


Esmaguei mais um inseto. Um mísero e desprezível inseto foi eliminado do mundo. Ele estava ali, grande para um inseto e pequeno para mim. Não tive dúvidas: fi-lo impiedosamente.

Eu sabia que estava invadindo o seu espaço, a mata atlântica. Mas, agora, já era tarde. O espaço era meu e pronto. Nada mais havia a ser feito.

Aquele ato, consciente, me faz pensar no Estado de Israel. Os judeus chegaram, esmagaram e declararam: "Agora, é nosso!". Senti-me como um israelense esmagando um palestino. Para aqueles, este não é nada, assim como os insetos não o são para mim.

A forma como, simplesmente, peguei uma caixinha de fósforos e a prensei contra o seu corpo débil, frágil e vacilante; a maneira displicente como eu rolei seu corpo pela mesa até cair no chão trouxe-me outra imagem. A do corpo de um judeu esquelético (ou comunista ou cigano ou latino talvez) rolando para uma vala comum(itária) num campo de concentração nazista. Débil, frágil, mas não mais vacilante.

Só não há pilhas de insetos no fundo da vala, em volta de meus pés. Mesmo porque os insetos são imperceptíveis depois de mortos.


Daniela Versieux - fevereiro-março/2010

segunda-feira, 13 de junho de 2011

À DERIVA

Navego por mares incertos,
alternam-se tempestades e calmarias.
Não consigo atracar.

Ao longe, enxergo ilhas solitárias.
Flerto com recifes de corais.
Lulas gigantes me olham nos olhos,
querendo devorar-me.
Não posso atracar.

Continentes passam por mim feito
montanhas de gelo flutuantes.
Imensos cardumes me negam alimento.
Ainda não preciso atracar.

Medusas reluzentes iluminam meu caminho
com seus tentáculos biofosforescentes.
A névoa aos poucos começa a se dissipar.
Já nem quero atracar...

Um porto. Será seguro?
A baleia branca que me acompanha desde sempre
                                                          guia-me até ele.
Sinais emitidos da costa
reascendem em mim alguma esperança.

Vejo um farol que começa de repente a piscar:
código morse.
Atendo ao seu chamado.
E resolvo finalmente atracar.



Daniela Versieux - novembro/2010

sexta-feira, 10 de junho de 2011

CRÔNICA FAMILIAR

A vinda daquela criança era muito esperada. O pai estava ansioso. Há meses fazia planos de brincarem juntos. Ele mesmo a ensinaria a jogar bola, a brincar de bolinhas de gude, finca; mostraria a ela suas músicas prediletas. Construiriam juntos os seus brinquedos: carrinhos de rolimã, patinete, pipas, manetes, carrinhos de lata de óleo e de madeira. Somente aquela criança poderia entrar no seu sagrado mundo da oficina: parafusos, porcas, chaves de fenda, ferramentas mil. Ensinaria a ela a consertar de tudo: chuveiros, fechaduras, panelas e tudo o mais que em uma casa se precisa consertar. Seriam companheiros inseparáveis. Pescarias infinitas os esperavam; passeios pelo parque municipal, jogos de futebol no campinho do bairro aos domingos. Mostraria orgulhoso o filho aos amigos: “esse é craque! Tá no sangue!”.

Com o pai, o filho aprenderia a ser um homem de verdade. Ensinaria a respeitar as pessoas, a aprender com os mais velhos. E não faria como o seu próprio pai fizera, não senhor! Deixaria a criança escolher livremente o seu caminho. Mostraria, sim, qual considerava o melhor, o mais correto, quais as vantagens e desvantagens de tal e qual profissão, isso sim.

Depois de nove meses de espera, de planos e sonhos, finalmente chegou o grande dia. Operação marcada, pois haviam planejado ter apenas dois filhos, a mãe se submeteria a uma cesariana e, logo em seguida, a uma ligadura de trompas. Cumpriram todo o ritual. A mãe se preparou: foi ao salão de beleza; arrumou duas malas, uma pra si outra pra criança; deixara a filha mais velha com a cunhada. O pai agendou o táxi; pagou o parto e a operação; tirou licença do trabalho.

Ah! Já ia esquecendo-me de dizer. Isso se passou numa época em que ainda não existia o ultrassom. O pai não podia se agüentar de tanta ansiedade. Na sala de espera, escutou o choro da criança. Correu até a porta do bloco cirúrgico. A enfermeira veio avisá-lo que seu rebento havia chegado. Num parto sem dor, a criança nasceu. Fofa, saudável, rosada, veio ao mundo aos berros, como só poderia ser. Era uma menina.

Como podia ser? Como acontecera? Já havia uma princesinha em casa. E o nosso príncipe? E o machinho da família? Todos os sonhos desmoronados. Os planos de brincarem juntos, de se tornarem o melhor amigo um do outro... Tudo, tudo se perdeu. O nome já escolhido, a criança sem nome. Que fazer?

Meio atordoado, o pai saiu em direção ao corredor. Desceu alguns lances da escada e ganhou o saguão do hospital. Lá, uma linda menina de cabelos negros e encaracolados brincava com uma bonequinha preta de pano. Muito calma e entretida em sua brincadeira, esperava há mais de doze horas a cegonha trazer seu novo irmãozinho. Próximo a ela, uma senhora cochilava.

O pai da menina-que-deveria-ter-sido-menino sentou-se ao lado da menina-da-bonequinha-preta-de-pano e começou a conversar com ela:

_ Quantos anos você tem?

_ Cinco.

_ Está esperando sua mamãe?

 _ Sim, meu irmãozinho está chegando... Meu pai foi buscar um lanche para nós. E a vovó está dormindo...

_ E como você se chama?

 _ Fernanda.

 _ Bonito nome o seu...

Ele fitou consternado a criança, os olhos úmidos, abriu um sorriso e despediu-se dela, voltando calmamente para o bloco cirúrgico. O nome? Ficou Fernanda!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

ARRUDAS

Vejo-te cheio, imponente
As margens elevam-se monstruosas,
única alternativa ao cimento
que o cerca


Desce a avenida sem hesitar,
empurrando a última cachoeira
que lhe resta,
antes de desafogar mágoas
e excrementos no Velhas


Vejo-te.
A tempestade caindo ao longe
anuncia uma realidade já dada
No futuro do pretérito,
a calmaria impera


O amanhecer nebuloso
traz a segurança do rio calmo
Ainda uma vez, contido nos estreitos limites
do canal quase boullevard:
Presente imperfeito


O sol abre o domingo,
esperançoso.
Nenhuma gota cai aqui.
Fiquemos privados do arco-íris
Fiquemos com a promessa do seu fim


Daniela Versieux - 25 de janeiro de 2011